As origens
Por que lemos o que lemos?
Meu irmão lia Frankenstein, de Mary Shelley, e eu lia A Volta ao Mundo em 80 dias. Luis tinha 12 e eu, 14. Estávamos no nosso quarto (que dividíamos) no longínquo bairro de Jardim de São Paulo, na zona norte de SP. Conversávamos sempre sobre as leituras que, até aquele momento, eram basicamente gibis (principalmente da DC Comics, traduzidos ao português pela Editora Abril), encartes de discos ou então os materiais escolares que éramos obrigados. Ele foi mais precoce do que eu na literatura: começamos ao mesmo tempo, mas ele é dois anos mais novo. A Volta ao Mundo em 80 dias foi o primeiro livro que eu realmente me apaixonei: de ler sem parar e de reler de tempos em tempos. Em alguma medida, essas leituras originais acabam marcando bastante traços de personalidade que já estão incutidos, mas que precisam da palavra escrita para aflorarem. As artes são este empurrão para a experiência real. Meu irmão não virou um cientista criador de corpos humanos, embora ele seja muito mais afeito a criações tecnológicas do que eu -- Luis é seguramente mais afeito a evoluções tecnológicas do que eu (aliás, você já leu o Substack dele?).
Eu sempre fui fascinado por experiências reais, de imersão completa em territórios que viagens proporcionam. Luis, muito menos. Ele se comove mais com a experiência adquirida intelectualmente: um filme assistido em casa, um livro lido no quarto. O hiper foco dele garante uma capacidade sem igual de abstração. Dividimos alguns vícios aleatórios (nenhuma outra pessoa no mundo sabe mais detalhes sobre os filmes de Fritz Lang do que eu e ele, por exemplo), somos diferentes em um bocado de coisas, mas acho que, na origem, a maior diferença reside justamente neste modo de assimilar o que há a disposição no mundo durante o tempo em que estamos vivos.

Como esses dias de começo do ano permitem um exercício de psicologia, suspeito que boa parte da humanidade se divide assim -- aqueles que precisam sentir na pele para dar saltos (quaisquer que sejam eles: inclusive biológicos) e aqueles que assimilam tudo mais facilmente pela via eminentemente particular. O ser social e o ser individual.
Nenhum outro livro de Júlio Verne mexeu tanto comigo quanto A Volta ao Mundo em 80 dias. A narrativa envolvente não era suficiente: viajar a lua, ao centro da terra ou pelas léguas submarinas não me parecia crível o suficiente. Para mentes pouco afeitas a ficção científica, aquilo era como o Game of Thrones da época (uma série, aliás, que eu nunca assisti porque me conheço e sei que não me engajarei). A viagem de Phileas Fogg não: ele embarca em trens reais, percorre trajetos existentes, experimenta alimentos verdadeiros, sente calor, passa frio... tudo aquilo de fato poderia ter ocorrido. Passei boa parte de minha vida adulta viajando: entrando em becos completamente aleatórios, tentando me comunicar com livrinhos de palavras (hoje em dia, com aplicativos), comendo o que há de local em cada território (desde que não tenha frutos do mar porque sou fortemente alérgico a iodo). Primeiro, como jornalista: do sertão da Bahia, visitando e descrevendo a leitoras e leitores os cenários de minas de diamantes em minúsculas cidades de 10 mil habitantes; entrando em aldeias guaranis no interior catarinense; acompanhando greves de trabalhadores metalúrgicos em São Paulo. As diferentes atividades que fui inventando de fazer (jornalista, consultor, professor, administrador público) sempre envolveram movimento pelos territórios. Tenho um orgulho pessoal: conhecer todos os Estados brasileiros e não apenas suas capitais, mas também o interior, o litoral atlântico, os rios amazônicos... ter visitado todos os países sul-americanos (são 12!), uma ilha que até hoje gera um bocado de polêmica, o Oriente Médio, uma parte da Europa ocidental, a China... e ainda há muito o que ver, conhecer, relatar, contar, transformar.
A perda precoce de minha mãe gerou um trauma que trabalho até hoje. Mas gerou, também, uma urgência infernal: é preciso fazer, se movimentar, criar, experimentar e é preciso fazer isso logo e de forma ininterrupta. Afinal, a vida é um sopro (diria Niemeyer) e vai passar inexoravelmente. Então ficar parado não é exatamente uma opção.
Li livros inesquecíveis em 2025. O melhor deles foi A Fronteira, da jornalista norueguesa Erika Fatland. São quase 900 páginas mas que, perdoe o clichê, leitora e leitor cá do Refúgio do ruído, parecem tudo menos um calhamaço. Como Erika escreve bem! Sua premissa é cativante: ela queria percorrer toda a fronteira do maior país do mundo sem, no entanto, efetivamente relatar da perspectiva do território russo, mas sim dos seus vizinhos. São 15, se contarmos os Estados Unidos (e Erika conta, afinal, quando congelado, o Estreito de Bering permite atravessar de um país a outro como se a fronteira fosse de fato “terrestre”). Ela percorre tudo: do gelo mais profundo e terrível -- justamente em Bering -- ao calor abafado, passando por fronteiras em guerra (pois é), fronteiras lotadas, fronteiras vazias, fronteiras misturadas (em que há relação umbilical entre o país fronteiriço e a Rússia) e fronteiras cheias de desconfiança. A Fronteira traz a narrativa de Erika em primeira pessoa, descrevendo o que ela fez para conseguir caminhar, dirigir, ganhar carona, transitar de trem, chegar de pequeno avião ou remar em barco. E ela recheia o seu relato com pesquisa histórica sobre as relações passadas entre os vizinhos -- da invasão dos mongois ao apoio russo (soviético) a Manchúria, na China, durante a II Guerra Mundial.
A guerra, aliás, foi outro tema que marcou meu 2025. Como toda leitora e leitor aqui sabe, sou muito afetado pelo conflito: meus avós maternos deixaram a Espanha por conta daquele desastre humanitário, vindo tentar a vida no Brasil (meu avô Victor Villaverde como pedreiro e minha avó Dulcina Canabal como dona de casa). Meu avô paterno, João Almeida, partiria para as Forças Expedicionárias Brasileiras (FEB) caso a guerra tivesse durado mais um ano e terminado em 1946, em vez de 45. Ele perdeu amigos queridos de São João Del Rey (MG) na Itália. Meu avô João faleceu em agosto de 2025, deixando suas histórias aqui comigo.
Li diversos livros sobre a II Guerra Mundial no ano que passou. De Hora da Guerra, de Jorge Amado, a O Tenente, de Celso Furtado, passando pelas 784 páginas de The Second World War, em que o grande historiador britânico Antony Beevor, reconstrói a partir dos arquivos originais que ele acessou tanto em Londres quanto em Moscou quanto em Berlim. O livro de Furtado, aliás, é um registro riquíssimo: o jovem paraibano de 24 anos anota a quente suas impressões do estrangeiro, especula sobre a mentalidade fascista do inimigo abjeto (da Itália de Mussolini a Alemanha de Hitler), passando pelo notável carisma das mulheres italianas.
Li muitas autoras em 2025, além da já citada Erika Fatland: a chilena Cecilia Vicuña, a colombiana Maria Gomez Lara, a chinesa Keyu Jin, a sino-brasileira Rafaela Tavares Kawasaki. Nem preciso dizer que gostei de cada uma dessas leituras: a vida é curta demais para forçar a leitura de livro ruim. Todos os que li, como sempre, li porque gostei do começo ao fim. De outra forma, teria largado (como larguei vários livros em 2025) e sequer mencionaria aqui (tudo o que cito, cito porque gostei muito).
Notável, também, foi o livraço que a economista Margarita Fajardo lançou no ano passado e que tive a sorte de encontrar logo após o lançamento: El mundo según América Latina - la CEPAL en la era del desarrolo. Se todos os economistas escrevessem bem como Margarita... teríamos muitos problemas a menos no debate público. Suspeito, aliás, que aquele pensamento original dos economistas cepalinos (o argentino Raúl Prebisch, o chileno Aníbal Pinto, o brasileiro Celso Furtado entre outros ) tende a ser revigorado, reconstruído, neste novo arranjo multilateral.
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Fiz minhas compras em livrarias de rua. Em Brasília, 2025 foi ano de despedir do endereço original da Livraria Circulares. Tive a chance de lançar meu novo livro (Nada será como antes) lá. Foi uma noite inesquecível.
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Agora em janeiro de 2026, a Livraria Circulares abriu em novo endereço aqui em Brasília (está na quadra 714 Norte, entre o restaurante Jamburita e a lojinha do Petit Jardin), ocupando um espaço bem maior, com um café no mezanino e com uma agenda bem cativante de debates literários e políticos. Abro 2026 muito empolgado: a vida é movimento e mudar, de tempos em tempos, é preciso.





Muito bom, João