Piuí
Nesta edição: o domínio da energia (mais do que da tecnologia) sempre é determinante para hegemonia; os 60 anos do maior clássico dos Rolling Stones; os quatro vícios (mas só um faz mal); e mais...
Você conhece essa cena. Buster Keaton interpreta um engenheiro ferroviário que conduz um trem por uma ponte e, para facilitar sua fuga na perseguição em que está, ele incendeia a ponte: o trem seguinte percorre os trilhos e a ponte cai, em chamas, com trem e todos os figurantes, no rio. É uma das cenas mais famosas (e caras) do cinema: está em O General, filmado exatamente 100 anos atrás, em 1926.
(Como tudo no cinema antigo, a cena foi realizada de forma realista: o que você assiste é a realidade, com um trem verdadeiro caindo junto de uma ponte verdadeiramente em chamas e afundando em um rio que de fato está lá).
O filme centenário estava assentado em um roteiro que tratava da Guerra Civil dos EUA, em que o sul racista (os confederados) combatia o norte (a União). Os trens eram os meios mais modernos de transporte de massas do século 19. Mais recentemente, ainda no cinema, quando Doc Brown (Christopher Lloyd) retorna a 1885 em De Volta para o Futuro 3, é diante de trens e ferrovias que ele se depara.
É conhecida, também, a metáfora do trem no trilho: diferente de cavalos, carros, motos, bicicletas ou andar a pé, o trem não pode mudar sua trajetória. Ele segue restrito aos trilhos. Se os trilhos dobram a esquerda, o trem dobra a esquerda. Se os trilhos estão quebrados, o trem estaciona. Ele está restrito pelo caminho e sempre segue adiante, somente adiante.
Mas o que me interessa aqui não são metáforas batidas tampouco os filmes centenários (que, de fato, eu amo assistir e reassistir), mas a seara embutida no domínio da técnica.
Quem dominava a tecnologia principal de locomoção humana no século 19 e princípios do século 20 era, também, quem dominava a economia mundial. Na era dos impérios (que, aliás, jamais terminou…), o domínio tecnológico e militar era tão fundamental quanto a hegemonia dirigente (aquela que, sabemos, atua por meio da persuasão, das ideias e sua assimilação por uma sociedade). O tráfico transatlântico de seres humanos escravizados, dominado por Portugal e Espanha, seguido da economia do carvão e dos motores a vapor que impulsionavam as ferrovias carregando mercadorias que também eram produzidas por fábricas a carvão (domínio inglês, depois exportado pelo mundo), chegando no século XX com o domínio do petróleo e do gás, impulsionando tanto a locomoção (veículos a diesel e gasolina) como a produção generalizada de bens, como o plástico.
A tecnologia e, principalmente, a energia a impulsionar os avanços tecnológicos era fundamental para determinar as nações dominantes. Isso é um fato estabelecido na literatura em diferentes campos, como economia, ciência política, relações internacionais e administração pública.
O cinema e, mais precisamente, Hollywood, sempre foi a marca mais clara da hegemonia dirigente dos EUA. Mesmo os países que produziam grandes filmes, seja em qualidade, seja em sucesso de público, como Alemanha, Itália, União Soviética e França, não tinham a abundância de capital despejado no cinema que os EUA tinham durante todo o século XX. O domínio de corações e mentes, a hegemonia, era flagrantemente estadunidense. Essa hegemonia dirigente veio acompanhada daquela faceta mais, digamos, clássica: o uso (ou ameaça de uso) da força econômica (tarifas, bloqueio, embargos) e militar. A construção e manutenção de bases militares em dezenas de países pelo mundo gerou alterações urbanas (eu estive recentemente no Catar e é impressionante a sensação de estar em uma típica cidade norte-americana: ninguém caminha nas ruas, dado que são todas voltadas para carros grandes, devidamente lotados dos copos de papelão cheios de café comprados em drive-thru das grandes marcas de fast food dos EUA. É como se os locais que recebem os cidadãos dos EUA precisam ser transformados para facilitar a assimilação fora de casa).
A faceta mais clara da globalização talvez tenha sido essa: a perda de referência regional, em prol de um plasma de fácil identificação, que cheira a cheddar e a café aguado. Alguns anos atrás, a grande sacada sobre isso era o aparato teórico do “modernidade líquida”, do Bauman, que apontava criticamente para o avanço do individualismo e para as relações menos sólidas (e, portanto, líquidas) entre as pessoas e entre as instituições, diante da quantidade absurda de informações e a perda de referência das ideologias antes tida como fixas, seja no campo da política, seja no campo da religião.
Mas como ficarão aqueles que virão, diria Brecht?
O mundo do futuro é de tecnologias verdes. Energia eólica, solares e hidroelétricas sinalizam menos emissões de carbono na atmosfera, como sabemos todos, mas também a possibilidade de maior concentração de oferta no próprio território em que há a demanda. A dependência de petróleo que está concentrado nos mesmos países de sempre foi a marca de todo o século XX e de todo o século XXI até aqui. Não há uma indicação de rompimento disso no curtíssimo prazo, também sabemos todos. Mas eu achei realmente digno de nota que, no último relatório econômico chinês, a base energética tenha terminado 2025, o último ano do 14º plano quinquenal, tendo quase 31% de fontes renováveis. Trinta e um porcento.

Na margem, esse feito é especialmente notável: a capacidade de geração de energia por meio de eólicas aumentou 22,9% em apenas um ano (de 2024 para 2025) e a capacidade instalada de energia solar foi ampliada em 35,4%. Os dados completos estão aqui, caso você queira dar uma olhada. O investimento chinês em maquinário e partes e peças para fontes renováveis de energia fez despencar o preço desses materiais — e continua a fazer, é um processo continuado. Quanto mais barato fica para instalar e manter um painel solar ou um totem de energia eólica, mais fácil fica a sua absorção pelo mercado em geral, não é mesmo? Ao mesmo tempo em que o investimento realizado em pesquisa, teórica e aplicada, em diversos campos, fez atrair um número crescente da fina flor universitária do planeta para circular pelo território chinês e usufruir de suas universidades. Isso sempre traz resultados de avanços (inclusive em hegemonia…).
Há ainda grande dependência chinesa de carvão (a tecnologia do século XIX) e do petróleo (do XX e do XXI até aqui)…? Sim. Sem dúvida que sim. Volto a dizer: não há qualquer indicação de que o planeta mudará sua base energética de forma veloz no curto prazo.
Mas… voltemos ao presente, ao agora. Enquanto você lê este texto aqui (e eu sinto muito por isso, você merecia ler coisas melhores!), a China está apreciando e votando (sim, eu vi: usei o duplo gerúndio, aaargh) o seu novo plano quinquenal, todo gestado no ano passado e agora em processo final de assinatura. Este, o 15º programa de planejamento econômico e social, envolverá as ações gerais — do setor público, do setor privado e das ações sociais organizadas — por 2026, 2027, 2028, 2029 e 2030.
Todos os sinais apontam para incrementos importantes tanto na capacidade instalada quanto, principalmente, na substituição do consumo interno, para energia que vêm de fontes renováveis. Com a absorção rápida de veículos elétricos, seja por custos, seja por incentivos criados para isso e, muito importante, seja pela forma como esses carros têm entrado no imaginário coletivo por meio de filmes e vídeos nas redes sociais (olha a hegemonia dirigente aí), é possível que estejamos, todos, prestes a entrar em um momento de demanda sustentada estruturalmente por esse tipo de veículo. E isso é apenas um exemplo, que apresento de forma relativamente superficial, do que parece ser o futuro próximo.
O ano que passou e este começo de 2026 foram marcados pela onda de fascínio e medo com inteligência artificial. Todo fascínio segue junto do medo. São duas linhas que correm perfeitamente juntas. Há o grupo de pessoas que ficam completamente em êxtase com uma nova tecnologia e há o grupo de pessoas que ficam completamente paralisadas com medo do que a absorção dessa tecnologia fará com os empregos. Eu estou no grupo intermediário — sempre há um caminho pelo meio — formado por pessoas que ora ficam fascinadas com os avanços e ora ficam temerosas com os riscos para os trabalhadores e as trabalhadores do presente.
Mas a IA, antes dos vídeos em que os gatinhos surgem tocando violino na porta de casas, é uma forma nova de sugar recursos energéticos. Os data centers precisam de muitos recursos para funcionar. Essa é uma discussão muito importante, mas que eu deixarei para um outro momento (a sustentabilidade da coisa toda).
O que me interessa aqui é pensar hegemonia dominante e, assim, amarro as caraminholas que comecei com o filmaço do Buster Keaton. Não estamos diante do ocaso do petróleo — ele está mais perto do que estava quando o século atual começou, mas não parece que ele está na esquina não: ainda conviveremos com motores a combustão, com gasolina e diesel para todo lado impulsionando boa parte dos carros, ônibus e caminhões, além do plástico (produzido, sabemos, a partir de um derivado do petróleo). Não estamos mesmo. As rendas oriundas do petróleo, aliás, serão importantes para apoiar uma transição energética mais veloz (se, claro, os incentivos certos forem determinados). Não há, aqui, uma visão maniqueísta. É preciso pragmatismo: o domínio dessa fonte energética (seja em oferta real, seja em tecnologia de extração, seja em capacidade de refino, seja em toda a cadeia de beneficiamento) segue e seguirá, por mais um tempo relevante, determinante para a definição de quem exercerá mais força geopolítica. E isso ocorrerá de forma concomitante a um mapa do caminho para a descarbonização acelerada, a grande missão colocada pela COP e perseguida pelo Brasil.
Mas um novo mundo definitivamente já está aqui. E este, que aponta até o final dessa década de 20 em que vivemos agora e, especialmente, para os anos 30 que estão logo ali, é um mundo em que o domínio das novas fontes de energia e, principalmente, a capacidade dos países concentrarem em seus territórios essas fontes, será fundamental.

Para fechar, preciso dizer que não escaparei de uma sacadinha envolvendo trilhos. O planejamento é fundamental porque ele orienta a sociedade para aquilo que inescapavelmente está por vir. Uma boa visão, construída com diálogo e percepção desinteressada da realidade, permite colocar nos trilhos (rá) o bom desenvolvimento de um território.
FUGA
Há 60 anos, exatamente sessenta anos, a maior banda de rock do mundo mostrou a que veio: os Rolling Stones gravaram “Paint it, Black” em 1966, que saiu em um compacto que gerou um impacto imediato. De repente, a música pop ficava meio assustadora (depois surgiria o Black Sabbath e, com ele, o heavy metal), com temática lírica noturna em vez de solar (o que os Beatles depois levariam a última potência naquele mesmo ano com Revolver). E os gritos de Mick Jagger, ao final, são urros que ativam o lado sensorial até hoje:
I wanna see it painted
Painted black
Black as night
Black as coal
I wanna see the sun
Blotted out from the sky
I wanna see it painted, painted, painted
Painted black, yeah
TALVEZ…?
Eu gosto muito da newsletter The Dispatch. Eu estava lendo a edição de anteontem quando me dei conta de uma coisa. Vamos ver se eu e você, leitora e leitor, pensamos igual. Dê uma olhadinha nas chamadas das reportagens daquele dia (quinta-feira, 05/03/26):
1) U.S. sinks Iranian Warship (Os EUA afundam navio de guerra iraniano);
2) U.S. guides Ecuardor Anti-Cartel Operations (Os EUA guiam operação anti-cartel no Equador);
3) Ukraine seemingly sinks Russian tanker in Mediterranean (Ucrânia aparentemente afundou navio-tanque da Rússia no Mediterrâneo);
4) British’s lawmaker’s husband arrested for spying for China (Marido de parlamentar britânica é preso por espionar pela China);
5) Burgum visits Venezuela (Burgum, secretário de interior do governo dos EUA, visita a Venezuela).
Essas são as cinco matérias da edição de anteontem. Ao terminar de ler tudo, eu me dei conta de que, talvez, já estejamos em um contexto de…
… é, você entendeu.
REFÚGIO DO RUÍDO
Essa é a primeira edição da Refúgio do ruído 100% pelo Substack. Comecei essa newsletter em março de 2020 (há seis anos, meu deus, o tempo voa) e até o mês passado, ela era totalmente por e-mail. Agora, não. Há essa página fixa, que permite a você ler quando quiser e também ficou mais fácil encaminhar. Então você, leitora e leitor, que achar esses textos aqui podem agradar (ou desagradar, vai saber a intenção, não é mesmo?) alguém que você conhece, fique a vontade para encaminhar :)
PAUSA

Eu costumo dizer que tenho quatro vícios, mas que apenas um faz mal para a saúde. Os três vícios que me fazem bem: eu sou viciado em café: tomo de todos os tipos, o dia todo, mesmo antes de dormir (e o meu preferido é o expresso do Café Todo Seu, instalado dentro da Livraria Circulares, em Brasília); eu sou viciado em música (tudo o que eu faço, faço com uma trilha sonora mental: eu escrevo isso aqui ouvindo música, escrevi meus quatro livros com muita música — tanto que menciono em cada um qual foi a trilha que embalou a escrita —, e passo o dia todo, quando possível, ouvindo música); eu sou viciado em escadas: desde pequeno, eu sempre gostei de subir e descer por escadas, seja em hoteis, seja em estabelecimentos comerciais, seja onde for: eu detesto elevadores e sou realmente viciado em ficar observando os detalhes das escadas). O vício que me faz mal: eu torço demais pelo Botafogo. Com exceção de 2024 e do primeiro semestre de 2025, este vício sempre me trouxe mais desconforto do que alegria. É uma sina de todo botafoguense: fazer a própria vida emular o Botafogo. Eu sou cheio de superstições (pois é) e vivo entre o abismo (frequentemente visitado) e a glória (ocasional, sempre fugaz). Mas vício é vício: quem diz que consegue romper com um, está blefando para a TV.
Disse tudo isso porque na próxima edição (que você receberá no dia 07/04) apresentarei uma coleção de imagens de algumas das minhas escadas preferidas. Estou fazendo a curadoria de fotos que fui tirando em diversos lugares (Montevidéu, Paris, Moscou, Nova York, Buenos Aires, Pequim, Istambul, Belém…) em diversos momentos meus. Espero que fique um arrazoado bacana de ler.
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Obrigado por chegar até aqui. Se você gostou, me escreva :) Se você gostou mesmo, compartilhe com quem você gosta de conversar sobre esse tipo de assunto.



Grande Buster Keaton. Bom post, me lembrou também do Tony Judt que era apaixonado por trens. E entrevista recente sobre IA em que o Yuval Harari fez essa comparação: “Imagine that we are now sitting in London and the year is 1835. The first railway has been opened between Manchester and Liverpool five years ago. And we have now this conference in London in 1835 and people are saying, “You know, all this talk about railways changing the world, the Industrial Revolution, this is nonsense. We have had railways for ages. Five years. And look.” Ao que parece metáforas com trens são inesgotáveis mesmo.